Anacleta era uruguaia, assim com
uruguaios eram seus três filhos. Viviam
na costa do rio Olimar,na Banda Oriental. Em
24 de janeiro de 1856 cinco homens vindos em um lancha adentraram sua
propriedade. Ines Josefa, Cleto Marcelino e Higenio Horato - de respectivamente, 13, 11 e 9 anos – eram demasiados
jovens para oferecer resistência aos malfeitores que avançavam. Sem poder
contar com mais ajuda Anacleta luta contra os agressores mas não consegue
evitar que seus filhos fossem arrebatados – assim se chamava na época o sequestro. Violentamente
amarrada, impedida de reagir, sabia que seriam levados para o Brasil e vendidos
como escravos. Certamente muitas notícias desse tipo de crime cometido contra
negros uruguaios – livres ou libertos – circulavam na localidade. Crimes que
vinham se tornando cada vez mais comuns. A valorização dos escravos após cessar o
abastecimento de africanos nos mercados brasileiros a partir da lei Eusébio de Queiróz (1850) tinha
se tornado um incentivo a mais aos criminosos.
Qual seria a atitude de Anacleta?
O caminho mais comum seria a resignação. O sofrer calada. Afinal, o que poderia
fazer uma mulher uruguaia, negra e pobre, em meados do século XIX, contra o gigante escravista? Mas Anacleta se dispôs a
lutar. Com todas suas forças arriscou sua vida, pois tinha que recuperar seus
filhos. Logo que pode se pôs em marcha perseguindo os criminosos que adentraram
às terras do Império brasileiro. Não se sabe como conseguiu chegar à cidade de
Rio Grande. Lá buscou ajuda no consulado uruguaio. Santiago Rodrigues, cônsul
do Estado Oriental, escreveu ao presidente de província sul-rio-grandense
denunciando o crime. Relatou que os dois meninos – Cleto Marcelino e Higenio
Honorato foram desembarcados e oferecidos publicamente a venda na capela do
Taim. Vendidos os dois menores, a menina Ines Josefa teria sido levada para
Mostardas na companhia dos criminosos.
Capela Nossa Senhora da Conceição. Vila do Taim.
Rio Grande/RS.
Fonte:
<http://atabernadahistoria.blogspot.com.br/2014/02/a-capilha-do-taim.html>.
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Certamente todos da localidade
ficaram sabendo dos públicos anúncios de venda de escravos feitos pelos
traficantes. Inclusive as autoridades da região, que nenhuma medida tomaram
para apurar o ocorrido. Não se sabe o desfecho do caso. O que se sabe é que
muitos outros casos similares engrossaram a documentação policial, judiciária e
diplomática da época – com raros desfechos de final feliz para vítimas. Se sabe
também que muitos outros casos permaneceram “envoltos nas sombras do mistério”, ou mesmo “sepultados no silêncio”. Anacleta
sentira na carne o tamanho do
desafio que se dispôs a enfrentar. Sua
experiência nos revela que o poderoso escravismo brasileiro, que pesava como uma
constante ameaça a liberdade de qualquer pessoa negra, muito se nutria de
silenciamentos, conivências e ilegalidades.
Fonte: AHRS/Consulados e Legações - Uruguai/Rio Grande-RS












