Na vila de Jaguarão circulava o ancião Ferrez. De 'espírito empreendedor', vivia de seus negócios. Muito conhecido na praça, tinha sua ocupação no lucrativo ramo de vender pessoas. Naquela época no Brasil, vender pessoas era uma atividade lícita - desde que as pessoas vendidas fossem 'legalmente' escravas. Mas Ferrez se dedicava a um afazer ainda mais lucrativo: comercializar pessoas livres como se cativas fossem. Escravização ilegal certamente era um crime. Mas apesar de ilegal, parece que nem tão imoral assim... Para a moralidade da época parecia que não havia grandes crises de consciência se uma pessoa negra fosse posta à venda - fosse ela escrava 'legal' ou não. Ainda mais se fosse desconhecida, estrangeira, vinda do outro lado da fronteira. E desta forma lucrava Ferrez - e tantos outros... - de seus crimes socialmente tolerados.
Após ser raptada de sua casa nas imediações da vila de Artigas (na República uruguaia), a oriental Emilia foi vendida por seiscentos patacões. O próprio Ferrez anunciava isso publicamente. Com "ciência e consciência de todos" Emília - negra, livre e uruguaia - fora trazida à força da Banda Oriental e comercializada em Jaguarão como escrava. Quem denunciava era o ministro uruguaio na Corte brasileira, Andrés Lamas, em nota diplomática ao ministro Visconde de Maranguape em 15 de julho de 1858. Dizia ainda que na noite de 20 de abril do mesmo ano, quando ocorreu o sequestro, Emilia - que teria entre 20 e 30 anos - havia sido levada das proximidades da vila de Artigas junto a seus dois filhos menores. Fora anunciada e vendida publicamente em Jaguarão, pois segundo Lamas, na localidade "esa infame pirateria está elevada á la clase de comercio licito".
Emilia poderia ter tido sorte e um destino diferente quando autoridades uruguaias se mobilizaram em seu auxílio. O próprio comandante da vila de Artigas foi pessoalmente à Jaguarão tratar do tema - obviamente que tal movimento não fora feito só por Emilia. Naquele momento o assunto já se tornara uma delicada questão internacional, envolvendo definições de soberania e independência -. Lá se encontrou com o chefe da fronteira brasileira, o coronel Vargas. Mas a aparente sorte de Emilia não foi páreo para a força da escravidão. Apesar de se conhecer o crime e o autor, as respostas genéricas e protocolares da autoridade brasileira deixava claro o pouco - ou nenhum...- interesse em se reparar o crime e punir os criminosos. E assim "sucedio lo que siempre suciede en estos negocios" - registrou Lamas em sua nota.
Emilia desapareceu de Jaguarão. Provavelmente a teriam enviado a Pelotas, seguindo o circuito criminoso de escravização de negros orientais: Jaguarão-Pelotas-Rio Grande e, por fim, a Corte, no Rio de Janeiro. Dizia Lamas que "este és el itinerario ahora más generalmente seguido para obtener mayor y más tranquilo provecho del crimen". E Ferrez...era como se nada houvesse ocorrido. Escreveu o ministro oriental que "El criminal Ferrez no fué ni levemente molestado; nádie le dijo una sola palabra y sigue viviendo en Yaguaron en pléna libertad y seguridad".
Até onde se sabe, Emilia desapareceu da documentação e da liberdade. Com seus dois filhos foi jogada na vala comum da escravidão desumana - como todas - e ilegal - como grande parte dos casos. A associação da ganância dos traficantes de carne humana com a tolerância (...conivência...cumplicidade...) das autoridades provinciais rio-grandenses sequestrou o futuro de Emilia e sua família. E mesmo que a representação oriental cobrasse com veemência o governo brasileiro apontando que "la situación creada por la frecuencia y la impunidad de tan nefário crimen és intolerable por parte de la República", o escravismo sistêmico e visceral continuou fazendo muitas outras vítimas - cuja grande maioria certamente não está registrada em qualquer documentação...
Fonte: ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN (Montevidéu) / FONDO MINISTERIO DE RELACIONES EXTERIORES / CAJA 89 - Legación del Uruguay en el Brasil / Carpeta 175 [1858].
Emilia poderia ter tido sorte e um destino diferente quando autoridades uruguaias se mobilizaram em seu auxílio. O próprio comandante da vila de Artigas foi pessoalmente à Jaguarão tratar do tema - obviamente que tal movimento não fora feito só por Emilia. Naquele momento o assunto já se tornara uma delicada questão internacional, envolvendo definições de soberania e independência -. Lá se encontrou com o chefe da fronteira brasileira, o coronel Vargas. Mas a aparente sorte de Emilia não foi páreo para a força da escravidão. Apesar de se conhecer o crime e o autor, as respostas genéricas e protocolares da autoridade brasileira deixava claro o pouco - ou nenhum...- interesse em se reparar o crime e punir os criminosos. E assim "sucedio lo que siempre suciede en estos negocios" - registrou Lamas em sua nota.
Emilia desapareceu de Jaguarão. Provavelmente a teriam enviado a Pelotas, seguindo o circuito criminoso de escravização de negros orientais: Jaguarão-Pelotas-Rio Grande e, por fim, a Corte, no Rio de Janeiro. Dizia Lamas que "este és el itinerario ahora más generalmente seguido para obtener mayor y más tranquilo provecho del crimen". E Ferrez...era como se nada houvesse ocorrido. Escreveu o ministro oriental que "El criminal Ferrez no fué ni levemente molestado; nádie le dijo una sola palabra y sigue viviendo en Yaguaron en pléna libertad y seguridad".
Até onde se sabe, Emilia desapareceu da documentação e da liberdade. Com seus dois filhos foi jogada na vala comum da escravidão desumana - como todas - e ilegal - como grande parte dos casos. A associação da ganância dos traficantes de carne humana com a tolerância (...conivência...cumplicidade...) das autoridades provinciais rio-grandenses sequestrou o futuro de Emilia e sua família. E mesmo que a representação oriental cobrasse com veemência o governo brasileiro apontando que "la situación creada por la frecuencia y la impunidad de tan nefário crimen és intolerable por parte de la República", o escravismo sistêmico e visceral continuou fazendo muitas outras vítimas - cuja grande maioria certamente não está registrada em qualquer documentação...
Fonte: ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN (Montevidéu) / FONDO MINISTERIO DE RELACIONES EXTERIORES / CAJA 89 - Legación del Uruguay en el Brasil / Carpeta 175 [1858].

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