sexta-feira, 15 de março de 2019

Trabalhadores compulsórios: às armas ou às estâncias...

Ser pobre no Brasil oitocentista era ser submetido à lógica do mandonismo de classe e ser negro era ser um escravo em potencial. Frequentemente reunidas, tais características tornavam árdua a vida de qualquer indivíduo. De Piratini viria um dos tantos alertas abafados, esvaziados e naturalizados pela violência cotidiana e recorrente contra grupos que não se queria escutar. Curiosamente a queixa partiu do delegado de polícia da localidade.

Não se sabe se por questão humanitária ou na tentativa engenhosa de atingir algum desafeto - fator esse bastante comum à época a mobilizar ações aparentemente altruístas -, ocorre que Bernardo Pires em 15 de fevereiro de 1856 enviou diretamente ao presidente da província uma correspondência de denúncia acerca da situação cruel e desumana a que estava sendo submetida a população mais desassistida. Dizia o delegado suplente que "os pobres, os infelizes e indigentes que nem meios têm para se fardarem, são muitos deles os primeiros que envoltos nos trapos da cruel miséria marcham para os destacamento de fronteira".

Segundo sua própria narrativa, o que causava indignação ao delegado eram os sórdidos expedientes utilizados pelos mais abastados, pelos "moços remediados e em boas circunstâncias" para se evadirem ao serviço das armas. Fingiam trabalhar como marcadores de terneiros, se passavam como capatazes uns dos outros, forjavam papeletas de "arrematantes de passos em que nunca há uma canoa". Assim era comum que famílias inteiras não tivessem uma só pessoa alistada.

Como agravante ao infame e torpe artifício, aponta que muitos desses indivíduos compulsoriamente 'enganchados' nem mesmo chegaram a servir nas forças militares. Não atuavam "como soldados da Nação Brasileira, mas sim como peões, daqueles que domam e conduzem tropas de gado e de carretas". Sob o ponto de vista moral e de interesse público a acusação era grave: haveria um esquema montado para facilitar a esquiva dos filhos de famílias renomadas, de recursos ou mesmo com boas relações de cumprirem o serviço militar. Ao mesmo tempo tal aparato proporcionava mão de obra gratuita a estancieiros, comerciantes, militares (...) que participavam do negócio, acobertado pelo beneplácito do Estado e cumprimento às obrigações com a Nação.


Não se sabe os detalhes do desdobramento do caso. É certo porém, que a prática não se extinguiu. Até a denúncia do delegado "moços de boas famílias" sempre se evadiram ao reles serviço das armas - exceto às prestigiadas e rentáveis hierarquias de oficiais. A Guerra do Paraguai (1864-1870) viria a demonstrar isso claramente. E quanto a sugestão feita ao presidente da província para enfrentar o problema... Propôs Bernardo Pires que para "fazer respeitar os direitos do povo" era preciso formar uma patrulha "e percorrer os pontos mais essenciais do município [...] prendendo-se os maus, e recrutando-se os que podem e devem servir nos Corpos de 1ª linha do exército". Estaria a sociedade escravista brasileira preparada para tamanha quebra de hierarquias? Permitiriam as famílias abastadas que se cumprisse literalmente o que está escrito? Difícil responder...?


Fonte: AHRS, Fundo Polícia, Piratini, Correspondência Expedida, Ano: 1856, maço 16.

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