sábado, 13 de julho de 2024

A coragem de Anacleta


             Anacleta era uruguaia, assim com uruguaios eram seus três  filhos. Viviam na costa do rio Olimar,na Banda Oriental. Em  24 de janeiro de 1856 cinco homens vindos em um lancha adentraram sua propriedade. Ines Josefa, Cleto Marcelino e Higenio Horato -  de respectivamente, 13, 11 e 9 anos – eram demasiados jovens para oferecer resistência aos malfeitores que avançavam. Sem poder contar com mais ajuda Anacleta luta contra os agressores mas não consegue evitar que seus filhos fossem arrebatados – assim  se chamava na época o sequestro. Violentamente amarrada, impedida de reagir, sabia que seriam levados para o Brasil e vendidos como escravos. Certamente muitas notícias desse tipo de crime cometido contra negros uruguaios – livres ou libertos – circulavam na localidade. Crimes que vinham se tornando cada vez mais comuns. A valorização dos escravos após cessar o abastecimento de africanos nos mercados brasileiros a  partir da lei Eusébio de Queiróz (1850) tinha se tornado um incentivo a mais aos criminosos.

Qual seria a atitude de Anacleta? O caminho mais comum seria a resignação. O sofrer calada. Afinal, o que poderia fazer uma mulher uruguaia, negra e pobre, em meados do século XIX, contra o gigante escravista? Mas Anacleta se dispôs a lutar. Com todas suas forças arriscou sua vida, pois tinha que recuperar seus filhos. Logo que pode se pôs em marcha perseguindo os criminosos que adentraram às terras do Império brasileiro. Não se sabe como conseguiu chegar à cidade de Rio Grande. Lá buscou ajuda no consulado uruguaio. Santiago Rodrigues, cônsul do Estado Oriental, escreveu ao presidente de província sul-rio-grandense denunciando o crime. Relatou que os dois meninos – Cleto Marcelino e Higenio Honorato foram desembarcados e oferecidos publicamente a venda na capela do Taim. Vendidos os dois menores, a menina Ines Josefa teria sido levada para Mostardas na companhia dos criminosos.

Capela Nossa Senhora da Conceição. Vila do Taim. Rio Grande/RS.
Fonte: <http://atabernadahistoria.blogspot.com.br/2014/02/a-capilha-do-taim.html>.

Certamente todos da localidade ficaram sabendo dos públicos anúncios de venda de escravos feitos pelos traficantes. Inclusive as autoridades da região, que nenhuma medida tomaram para apurar o ocorrido. Não se sabe o desfecho do caso. O que se sabe é que muitos outros casos similares engrossaram a documentação policial, judiciária e diplomática da época – com raros desfechos de final feliz para vítimas. Se sabe também que muitos outros casos permaneceram “envoltos nas sombras do mistério”, ou mesmo “sepultados no silêncio”. Anacleta  sentira na carne  o tamanho do desafio que se dispôs  a enfrentar. Sua experiência nos revela que o poderoso escravismo brasileiro, que pesava como uma constante ameaça a liberdade de qualquer pessoa negra, muito se nutria de silenciamentos, conivências e ilegalidades.


                Fonte: AHRS/Consulados e Legações - Uruguai/Rio Grande-RS